Dicionário da moda sustentável: 32 termos do slow fashion explicados

Glória Audi Ribeiro

Moda sustentável virou assunto — mas junto veio um monte de palavra difícil: slow fashion, upcycling, agênero, economia circular… Se você já se perdeu em algum termo, este dicionário é pra você. Reunimos 32 palavras do universo da moda consciente e explicamos cada uma de um jeito simples, do nosso jeito de fazer aqui no ateliê. 🤎

A

Agênero (moda agênero)

Roupa pensada sem a divisão "masculino" e "feminino" — feita pra qualquer pessoa, sem colocar gênero na peça de roupa. É a base da nossa coleção: modelagens que servem e acolhem qualquer corpo, sem rótulo.

Algodão BCI

Algodão produzido dentro dos critérios da Better Cotton (antiga Better Cotton Initiative), uma iniciativa que incentiva um cultivo com menos água, menos agrotóxicos e melhores condições de trabalho no campo. É um dos tecidos que a gente escolhe com critério.

Aproveitamento têxtil

É usar tecidos que sobraram da grande indústria — sobras de produção, pontas de estoque ou tecidos de coleções passadas que seriam descartados quando "saem de moda". Hoje existem fornecedores que compram essa matéria-prima e revendem, em vez de deixá-la virar lixo. É quase um "brechó de tecidos": são tecidos novos e sem uso, mas quase únicos — quando um acaba, dificilmente se encontra de novo. Uma forma de conseguir matéria-prima sem incentivar a produção desenfreada da indústria têxtil.

Atemporalidade

A qualidade de uma peça que não "sai de moda". Roupa atemporal é aquela que você usa por anos, em vez de trocar a cada estação. É o oposto da lógica de tendência descartável — um jeito de consumir menos comprando melhor. Além de não seguir "trends", são peças pensadas pra durar, com costuras e acabamentos resistentes.

C

Cânhamo

Fibra natural resistente, obtida da planta do cânhamo. Costuma exigir pouca água e poucos insumos pra crescer, e gera tecidos duráveis — por isso aparece bastante em conversas sobre moda de menor impacto. É popularmente associado à maconha (ou hemp): vem da mesma planta, mas de uma variedade com teor muito baixo de THC.

Comércio justo (pagamento justo)

Garantir que quem faz a roupa seja pago de forma digna pelo trabalho. Numa cadeia de moda justa, o preço da peça respeita as mãos que a costuraram — do corte ao acabamento.

Consumo consciente

Comprar com intenção: pensar se você realmente precisa, se vai usar por muito tempo e de onde aquilo veio. É escolher peças que combinam com o que você já tem e que rendem vários usos, e buscar produtos mais duráveis e versáteis. Não é deixar de comprar — é comprar melhor, e valorizar o que já se tem.

Costura francesa

Uma costura reforçada — são várias passadas de linha pra formar uma emenda só, que ainda envolve as bordas do tecido por dentro. Deixa a peça mais segura e é usada principalmente nas regiões que sofrem mais tração. Ajuda a aumentar a vida útil da roupa, sem desfiar nem abrir buraco na costura.

D

Deadstock

O nome em inglês para os tecidos que sobraram da indústria — sobras de produção, pontas de estoque ou tecidos de coleções passadas que seriam descartados. É a matéria-prima do "aproveitamento têxtil": tecido novo e sem uso, que ganha uma segunda chance em vez de virar lixo.

Durabilidade (peça feita pra durar)

A capacidade de uma roupa resistir ao uso e ao tempo sem perder a forma ou o caimento. Vem de bons tecidos, acabamento reforçado e cuidado no dia a dia. Roupa que dura é a forma mais honesta de gerar menos descarte. Mas durar tem duas partes: primeiro, a peça precisa ter sido pensada pra ter vida longa; depois, ser lavada e guardada com responsabilidade, pra estar sempre limpa e linda. (Veja nossas dicas de cuidado.)

E

Economia circular (moda circular)

Um modelo em que os materiais circulam o máximo possível, em vez de virarem lixo. Na moda, isso aparece em práticas como reaproveitar sobras, reformar peças e pensar cada roupa já imaginando sua vida longa.

F

Fashion Revolution

Um movimento global por uma moda mais transparente, justa e segura, criado depois do desabamento do edifício Rana Plaza, em 2013, em Bangladesh, onde morreram mais de mil trabalhadores da confecção. Ficou conhecido pela campanha "Quem fez minhas roupas?" (#WhoMadeMyClothes), que incentiva as pessoas a perguntarem de onde vêm suas roupas e as marcas a mostrarem quem está por trás da produção. Todo ano acontece a Fashion Revolution Week. É um movimento com o qual a Fuá se identifica — pedir e dar transparência faz parte do nosso jeito de fazer.

Fast fashion

O modelo de moda rápida: muitas coleções por ano, produção em grande escala e preços baixos, o que estimula a troca constante de roupa. Muitas vezes usa tecidos de qualidade inferior e não naturais — como são peças baratas e passageiras, investe-se pouco na durabilidade, já que a ideia é que não durem muito. É justamente o ritmo que o slow fashion propõe desacelerar.

Fibras naturais

Fios de origem natural — como algodão, linho, cânhamo e seda — em oposição às fibras 100% sintéticas derivadas de petróleo. Cada fibra tem seu uso; conhecer a composição da roupa ajuda a escolher e a cuidar melhor dela. Fibra natural não é sinônimo de 100% sustentável — mas, usada no lugar certo, pode aumentar o conforto térmico, e uma peça mais confortável costuma ser mais usada e ter menor impacto ao longo da vida.

Fibras sintéticas

Fios feitos pelo ser humano, geralmente a partir do petróleo — como poliéster, poliamida e elastano. Costumam ser resistentes, elásticos e de secagem rápida, o que é útil em certas peças. Usar fibra sintética não é, por si só, um "erro": o que importa é usá-la onde faz sentido, com a modelagem certa e pensando na durabilidade da roupa — é a lógica da moda responsável.

G

Greenwashing

Quando uma marca parece sustentável só na comunicação, sem prática real por trás. É a "maquiagem verde". O antídoto é pedir prova concreta: de onde vem o tecido, como é a produção, o que acontece com as sobras. Exigir transparência das marcas que você consome é fundamental pra conhecer de verdade o processo delas.

Guarda-roupa cápsula (ou armário cápsula)

Um conjunto enxuto de peças versáteis que combinam entre si e cobrem quase todas as ocasiões. A ideia é ter menos, mas com peças que você ama e usa de verdade — atemporais, de preferência.

L

Lixo têxtil

Todo o resíduo gerado pela produção e pelo descarte de roupas e tecidos — das sobras de fábrica às peças jogadas fora. É um dos maiores problemas ambientais da moda, e é justamente o que práticas como o lixo têxtil zero e o uso de deadstock querem evitar.

Lixo têxtil zero

A meta de não gerar resíduo têxtil na produção. As sobras maiores viram peças novas; os pedacinhos e fiapos viram enchimento. Descarte, aqui, é entendido como erro de design — o que sobra sempre ganha um novo destino.

M

Moda autoral

Roupa criada a partir de um olhar e uma assinatura próprios, em vez de copiar tendências prontas. Cada peça carrega a mão de quem a desenhou — tem identidade, história e intenção. Geralmente são marcas menores, com a estilista muitas vezes sendo a própria dona ou a principal responsável pela criação das coleções.

Moda responsável (ou moda consciente)

É produzir moda pensando em responsabilidade em todas as etapas. Uma marca toma muitas decisões — de material a modelagem, de produção a embalagem — e moda responsável é fazer cada uma dessas escolhas do jeito mais consciente possível, para as pessoas e para o meio ambiente. Não significa, por exemplo, zerar o uso de tecidos sintéticos, e sim usá-los onde fazem sentido, com a modelagem certa, quando trazem mais funcionalidade e durabilidade à peça. É entender que nada é 8 ou 80: em cada situação, buscar o equilíbrio entre o menor impacto ambiental e o maior uso real da roupa.

Moda sem gênero

Peças que não se prendem à divisão masculino/feminino e podem ser vestidas por qualquer pessoa. Mais do que uma estética, é uma forma de fazer moda que acolhe a diversidade de corpos e de expressões.

Modelagem inclusiva

Criar moldes que servem a uma variedade grande de corpos, e não só a um padrão. É pensar na necessidade de cada tamanho e adaptar a modelagem pra cada corpo, vestindo todo mundo com conforto. Na Fuá, a modelagem vai do PP ao 6G, com tabela própria de medidas — porque roupa tem que servir quem a veste, não o contrário.

O

Oversized (modelagem oversized)

Modelagem ampla, mais solta que o corpo, pensada pra cair com folga em vez de marcar. Além do conforto e do estilo, tende a servir uma variedade maior de corpos — por isso combina tão bem com a proposta de moda inclusiva e sem gênero.

P

Pequena escala

Produzir em quantidades menores, com mais controle e menos desperdício — o contrário da produção em massa. Permite cuidar de cada peça e evitar o excesso de estoque que vira descarte.

Produção local

Fabricar perto de onde a marca está, em vez de terceirizar pra longe — muitas vezes até pra outros países. Reduz transporte, aproxima quem cria de quem costura e fortalece a economia da região. É também uma forma de valorizar as pessoas da própria comunidade. Nossas peças nascem à mão no ateliê, em São Paulo.

Pronta-entrega e sob demanda

Dois jeitos de vender: na pronta-entrega, a peça já existe em estoque e sai rápido; sob demanda, ela é produzida só depois do pedido, o que evita sobra. Cada modelo tem suas vantagens pra reduzir desperdício.

S

Slow fashion

O oposto da moda rápida: um jeito de fazer e consumir roupa com tempo, cuidado e responsabilidade. Valoriza qualidade em vez de quantidade, produção justa, durabilidade e escolhas conscientes de material. É a filosofia que guia a Fuá desde 2015.

T

Transparência

Contar de forma aberta como a roupa é feita: material, origem, processo e quem está por trás. Marca transparente é aquela que você consegue "olhar por dentro" — e confiar no que vê.

U

Upcycling (reaproveitamento)

Transformar um material ou peça que iria pro descarte em algo de valor igual ou maior. É dar vida nova a retalhos e sobras — costurar o que "sobrou" e transformar em peça desejada. É uma técnica em alta: muita gente compra peças de brechó sem valor percebido e as transforma em algo novo e interessante. O importante é que a peça seja bem construída, com bons acabamentos, pra ser durável e ter vida longa.

V

Viscose de reflorestamento

Viscose feita a partir de celulose de florestas plantadas e manejadas de forma responsável. É uma opção de fibra de origem vegetal com menor impacto do que as versões convencionais.

Z

Zero waste

O termo em inglês para o mesmo princípio do lixo têxtil zero: desenhar a modelagem pra usar o tecido quase inteiro, com o mínimo de sobra, e dar destino a cada retalho. Aqui, o aproveitamento chega a 100% — nada do que entra no ateliê vira lixo.


Slow fashion, no fim, cabe numa ideia simples: fazer e consumir roupa com mais consciência — do tecido que entra ao cuidado que faz a peça durar anos. Cada palavra deste dicionário é um pedacinho desse jeito de pensar. 🤎

Quer ver isso na prática? Conheça as peças da Fuá ou dá uma passada no que já falaram da gente.

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