O que é slow fashion • e por que isso importa (mesmo se você não é da moda)
Fuá AteliêConsumo consciente
Slow fashion é um jeito de fazer e de vestir roupa em que o tempo é aliado, não inimigo
É roupa pensada pra durar anos, feita em quantidade pequena, por gente que você pode conhecer pelo nome. É qualidade acima de velocidade, e leva em conta quem costurou, o tecido que entrou, quanto tempo a peça vai ficar com você e o que sobra no fim. Slow fashion não é um estilo nem uma estética. É uma decisão sobre como a roupa é feita e quanto tempo ela vive.
E, ao contrário do que parece, não é sobre ser rico nem ter um armário de revista. É sobre escolher com atenção: pensando na vida útil da peça, em quantas vezes você vai realmente vestir, no quanto ela é versátil e no quanto ela é atemporal. Menos "gostei", mais "vou usar muito".
De onde vem o termo "slow fashion"
Quem cunhou foi a pesquisadora britânica Kate Fletcher, num artigo publicado na revista The Ecologist em junho de 2007. Ela pegou emprestada a lógica do movimento Slow Food, que nasceu como resposta ao fast food defendendo comida com origem, tempo e sabor, e aplicou na moda.
O ponto dela é importante e costuma se perder por aí: slow fashion não é só "produzir devagar". É uma abordagem baseada em qualidade, que considera o impacto nas pessoas que fazem a roupa, nas comunidades e nos ecossistemas. Desacelerar é consequência, não a receita.
A parte que quase ninguém conta: a roupa feita pra sair de moda
Tem uma coisa que a gente sente e raramente nomeia. Você compra uma peça, ama, usa três meses, e aí a marca lança uma coleção nova que faz a sua parecer velha. Não porque ela estragou. Porque foi feita pra isso.
Isso tem nome, e são dois nomes:
Obsolescência programada
A peça é projetada pra durar pouco. Tecido fino demais, linha fraca, botão que solta, elástico que cede depois de umas dez lavagens. Ela não falhou. Ela cumpriu o prazo que alguém definiu.
Obsolescência percebida
Mais sutil e talvez mais violenta. A peça continua inteira, mas te fizeram sentir que ela ficou velha. Coleções semanais, microtendências, aquele "isso é do ano passado". A roupa não acabou, a vontade de usar é que foi desmontada.
A ideia não nasceu na moda. Ela vem dos anos 1920, na indústria automobilística americana, quando se percebeu que dava pra vender carro não como transporte, mas como expressão de estilo de vida. Trocar o carro virou trocar de identidade. A moda pegou esse manual e apertou o acelerador.
É esse o motor: manter você na sensação de estar sempre um passo atrás. Coleção nova toda semana não existe porque as pessoas precisam de roupa nova toda semana. Existe porque a insatisfação vende.
Slow fashion desliga esse motor. Peça atemporal não é peça sem graça, é peça que não depende de um calendário pra fazer sentido. Ela pode até sair de linha um dia, isso acontece. O que não acontece é ela virar "coleção passada" em três meses. Você volta depois de um tempo e ela ainda combina com o que você tem, ainda te representa, ainda está de pé.
Aqui na Fuá a gente trabalha em coleções cápsula, criadas de forma fluida, e cada peça tem nome. Nome, não código de estação. E isso é de propósito: a gente quer que você use muito o que já levou, de vários jeitos diferentes. Por isso cada pedido vai com um flyer de cuidados, por isso a gente ensina a lavar e a guardar, por isso a gente responde no WhatsApp quando você tem dúvida. A gente faz querendo que essa peça tenha muitos usos.
A vida longa de uma peça (ela muda de função, e tudo bem)
Roupa boa não morre de uma vez. Ela vai mudando de lugar na sua vida.
Aquele macacão que era peça de sair, statement, o look que você guardava pro evento: depois de uns anos vira a roupa de encontrar as amigas num sábado. Depois vira a peça de ficar em casa, escrever, cozinhar, receber gente. Depois vira aquela que você joga pra ir no mercado sem pensar. E em nenhum desses momentos ela deixou de ser boa. Ela só foi ganhando intimidade.
Isso é durabilidade real, e é bem diferente de "a costura aguentou". É a peça sendo retransformada pelo uso, mudando de função, de contexto, de significado, sem sair do armário. Uma peça de fast fashion raramente chega nessa fase, porque o tecido cede, o caimento se perde, ou ela simplesmente já parece datada antes disso.
Nem todo uso pesa igual
Uma coisa que quase ninguém fala: o desgaste depende de quantas peças você tem rodando.
Se você tem muitas blusas e usa todas, cada uma leva pouco uso e vai durar muito tempo. Se você tem duas preferidas que usa toda semana, elas vão se desgastar antes, e não tem nada de errado nisso. Só quer dizer que essas merecem cuidado extra: lavar com mais água pra ter menos atrito entre as peças, usar sabão líquido (o sabão em pó machuca o tecido, e se for usar pó, dissolva antes), secar na sombra e, quando a peça não está suja de verdade, arejar em vez de jogar na máquina.
A misturinha da casa
Água, vinagre de álcool e álcool 70 num borrifador. Borrifa na peça pendurada, deixa arejar, e ela volta pro armário sem cheiro e sem ter passado pela máquina. Funciona pra jaqueta, calça, kimono, casaco, e pra tudo aquilo que a gente lava por hábito e não por necessidade.
Lavar menos é uma das coisas que mais aumenta a vida de uma roupa. Muita peça não morre de uso. Morre de máquina.
E tem o afeto, que também segura a peça no armário
Tem uma parte disso que não é técnica.
Quando você compra de uma marca pequena, você tem contato. Você sabe quem fez, de onde veio o tecido, por que a peça se chama do jeito que se chama. Às vezes você conhece o ateliê, às vezes trocou mensagem com quem costurou. Isso cria história, e história cria afeto. A peça deixa de ser um objeto e vira uma coisa sua.
Numa peça de fast fashion também rola paixão, claro, o design te ganhou e o laço é real. Mas normalmente é só isso: o design. Sem origem, sem nome, sem gente por trás. E quando não tem história segurando, descartar fica fácil. Fica automático.
E que fique dito, porque essa confusão existe: slow fashion não é o lado sem graça da história. Marca autoral costuma ter mais design, não menos. Modelagem original em vez de molde repetido, recorte inesperado, textura que ninguém mais está usando, cor que não veio de cartela de tendência. O que muda não é a beleza, é de onde ela vem: aqui ela nasce de uma pessoa com estilo próprio, e não de um algoritmo que copiou a passarela três semanas atrás.
Por que isso importa: os números que a etiqueta não conta
A gente não gosta de assustar ninguém. Mas dá pra entender o tamanho da coisa com poucos números.
Onde essa roupa vai parar, na prática
"Descartada" é uma palavra bonita demais pro que acontece. 80% do descarte têxtil no Brasil não é reaproveitado: vai pra queima, pra aterro sanitário, ou é simplesmente largado no meio ambiente.
E aí a pergunta que quase ninguém faz: isso se decompõe? Depende inteiramente do tecido. Fibra natural volta pra terra: técnicos da Abit e da Embrapa Algodão estimam que uma peça de algodão leva de alguns meses a alguns anos pra se degradar, variando muito com clima, solo e temperatura. Já o poliéster e os outros sintéticos são plástico feito de petróleo. Eles não se decompõem. Eles se quebram em pedaços cada vez menores, até virar microplástico, e nesse ponto param de ser visíveis sem parar de existir. Botão, zíper e etiqueta plástica seguem o mesmo caminho.
E tem a lavagem, que também polui
Toda vez que você lava uma roupa, ela solta partículas de fibra na água. Se a peça é de algodão ou linho, essas partículas se degradam. Se é de poliéster, nylon ou elastano, cada lavagem solta microplástico. Segundo o PNUMA, o programa ambiental da ONU, cerca de 35% dos microplásticos encontrados nos oceanos vêm da lavagem de tecidos sintéticos. Microfibras já foram achadas em zooplâncton, em mexilhões e em organismos de leito de rio, e de lá elas sobem a cadeia alimentar até chegar na gente.
E chegam mesmo. Nos últimos anos, pesquisas encontraram microplástico no leite materno (75% das amostras num estudo italiano de 2022), no cérebro (a USP achou no bulbo olfatório de pessoas que viveram em São Paulo) e no sêmen (55% das amostras numa pesquisa de 2025, ainda preliminar). A lista também já inclui pulmão, placenta e sangue. As fontes estão no fim do artigo, se quiser conferir.
Sendo justa: essas partículas vêm de muitas fontes, e embalagem plástica é uma das maiores. Não é tudo culpa da roupa. Mas roupa sintética é uma das fontes grandes, e é uma das poucas em que a escolha está na sua mão, toda vez que você compra e toda vez que você lava.
Estação de tratamento de esgoto ajuda, mas não resolve, e no Brasil boa parte da água nem chega lá: 44,8% da população brasileira não tem coleta de esgoto (dado do SINISA, ano-base 2023, no Ranking do Saneamento do Instituto Trata Brasil). Sem coleta não tem tratamento. A água da sua máquina vai direto.
E antes que pareça que a gente odeia poliéster
Não odeia. Demonizar uma fibra é raso e não ajuda ninguém a escolher melhor. O que importa não é o nome do material na etiqueta, é onde ele está e por quê.
Mistura pra baratear
Algodão com poliéster, viscose com poliéster. Na maioria das vezes a mistura existe pra baratear a fibra. O efeito colateral é uma peça que solta microplástico, não se decompõe e é quase impossível de reciclar, porque separar fibras misturadas é caríssimo.
Escolha de propósito
Um tecido 100% sintético usado porque aquele caimento, aquele brilho, aquela leveza ou aquela resistência é o que a peça pedia. Aí a fibra está cumprindo uma função, e não cortando um custo.
A pergunta útil, então, não é "tem sintético?". É "por que tem sintético aqui?". Se a resposta for design, conforto térmico ou o tipo de peça, ótimo. Se a resposta for "porque sai mais barato", você já sabe pra onde essa peça está indo.
Agora a parte boa, e é aqui que você entra. Segundo a WRAP, organização britânica que estuda durabilidade de roupas, estender a vida ativa de uma peça em apenas nove meses reduz sua pegada de carbono, de água e de resíduo em cerca de 20% a 30% cada uma.
Nove meses. Não é revolução, é uma roupa boa que você não quer largar.
Quem costurou a sua roupa? A distância também é um dado
Essa é a parte que a gente menos gosta de escrever e mais precisa dizer.
Marcas muito grandes, com produção enorme, tendem a buscar mão de obra longe. E não é só porque longe é mais barato: é também porque longe costuma ter lei trabalhista mais frouxa e fiscalização mais fraca. O que aqui seria multa e processo, ali é rotina. A peça atravessa continentes antes de chegar na arara, e quanto mais longo e mais fragmentado o processo de produção, mais fácil é não saber (ou não querer saber) o que acontece dentro dele. O custo desaparece da etiqueta e reaparece na vida de alguém.
Mas seria confortável demais dizer que isso é coisa de fora. Aqui dentro também acontece, e mais do que a gente gostaria. Só em 2025, o Brasil resgatou 2.772 pessoas de situações análogas à escravidão, uma alta de 38% em relação a 2024. Não são todas da moda, longe disso, mas a costura está nessa conta todo ano.
Um caso entre esses: entre agosto e setembro de 2025, auditores do Ministério do Trabalho resgataram 16 pessoas bolivianas de oficinas de costura na região metropolitana de Belo Horizonte, que costuravam para marcas de roupa brasileiras. Jornadas acima de 12 horas, locais abafados e sem ventilação, crianças morando junto das máquinas. As costureiras recebiam entre R$20 e R$80 por peça, e algumas dessas peças eram vendidas por até R$12 mil. As marcas alegaram que só tinham contrato comercial com as facções e não sabiam das condições.
"Não sabia" é exatamente o que um processo de produção longo e opaco permite dizer. Não importa se a distância é de um oceano ou de dois bairros: o que protege é enxergar a cadeia inteira. É por isso que transparência não é detalhe bonito de marketing. É o mecanismo que impede esse tipo de coisa de acontecer no escuro.
E transparência ainda é rara. No Índice de Transparência da Moda Brasil, do Fashion Revolution, as 60 maiores marcas e varejistas do país tiraram, em média, 17 pontos de 100, e 67% delas não divulgaram nada sobre quem são seus fornecedores.
Quem costurou isso?
Aqui a resposta tem nome: a Glória e a Cileide. A produção acontece em São Paulo e em Londrina, de onde vem a família da Glória. O crochê e o tricô são feitos pela mãe e pelas tias dela, ponto por ponto. Todo mundo recebe de forma justa, e o ateliê tem porta: você pode bater e entrar.
E isso não é privilégio da Fuá. É mais ou menos o padrão do slow fashion: produção no espaço da própria marca, com controle sobre o processo inteiro. Quando existe terceirização, e às vezes existe, o que define é a marca saber exatamente quem está fazendo, onde, em que condição e quanto essa pessoa recebe por peça. Não precisa ser pequeno. Precisa ser visível.
Onde a diferença aparece, na prática
| O que muda | No slow fashion | No fast fashion |
|---|---|---|
| Ritmo das coleções | Peças que continuam existindo. Você volta meses depois e ainda acha. | Coleção nova toda semana. A de ontem já saiu de linha. |
| Objetivo da peça | Durar anos e envelhecer bem | Vender rápido e ser substituída |
| Onde é feita | Geralmente no espaço da própria marca, com controle do processo inteiro. Havendo terceirização, a marca sabe quem faz, onde e em que condição. Na Fuá: ateliê em São Paulo, e costura, crochê e tricô em Londrina. | Processo de produção longo, comumente intercontinental, atrás de mão de obra mais barata e de lei trabalhista mais frouxa |
| Quem costura | Gente conhecida pelo nome e paga de forma justa. Na Fuá: Glória, Cileide, a mãe e as tias. | Rede de facções terceirizadas que a marca muitas vezes diz não conhecer, e onde em geral se recebe muito pouco por peça |
| Sobras de tecido | Reaproveitadas ao máximo. Na Fuá: 100%, lixo têxtil zero. | Jogadas fora. Aterro, queima ou direto no meio ambiente, sem preocupação nenhuma. |
| Design | Modelagem original, autoral, feita por gente com estilo próprio | Cópia rápida do que apareceu na passarela ou viralizou |
| Grade de tamanhos | Varia, mas a inclusão costuma ser parte do projeto. Na Fuá: PP ao 7G. | Grade estreita |
Como é o slow fashion aqui na Fuá, na prática
Falar é fácil. Então vamos abrir a porta e mostrar como a peça acontece, do começo.
1. Começa na criação, e a criação começa numa vontade
Antes de existir tecido, existe uma vontade de vestir. A Glória repara no que ela mesma quer usar: no dia a dia, num momento especial, numa noite em que quer se sentir bem. A peça nasce dessa observação. E isso não é detalhe romântico, é o que define a marca inteira, porque a Fuá é autoral: sai do gosto e do estilo dela.
Daí vêm os tons terrosos e as texturas que ela ama: rendas, plissados, transparências, algodões de todo tipo. É uma marca com cara de gente, porque saiu de uma.
2. Modelagem, matéria-prima e a parte preferida
A modelagem é original e feita pelas mãos dela. É aí que a ideia vira forma: onde cai o recorte, quanto de folga, que tipo de ombro, como a peça se comporta em corpos diferentes.
A compra da matéria-prima também é da Glória, e essa é uma das partes favoritas: garimpar tecido. A maior parte do que entra vem de aproveitamento têxtil, tecido que já existe e que ganharia outro destino. Às vezes ela idealiza a peça e sai atrás do tecido certo. Às vezes é o contrário: se apaixona por um tecido na loja, compra, e depois pensa que peça faz sentido nele.
3. As decisões que fazem a peça durar
Durabilidade não é sorte, é decisão, e são muitas decisões pequenas: costura reforçada, acabamento revisado peça a peça, modelagem atemporal que não fica datada na estação seguinte. Antes do corte, os tecidos planos de fibra natural são lavados, pra encolherem aqui e não na sua casa. A peça piloto é feita e testada antes de virar produção.
4. Nenhum retalho vira lixo
A gente trabalha com 100% de aproveitamento têxtil. Os pedaços maiores viram peças novas. Os menores viram enchimento das nossas almofadas, pesadas, gostosas, quem tem ama. Elas não estão à venda: a gente presenteia, às vezes de surpresa junto com um pedido, às vezes em sorteio no Instagram. Lixo têxtil zero, porque pra nós lixo é erro de design.
5. Produção pequena, local e sob demanda
A maior parte da peça passa pelas mãos da Glória, mas não é ela sozinha, e a gente faz questão de dizer: tem etapas feitas por outras mulheres, todas conhecidas de perto. A Cileide costura junto. A mãe e as tias da Glória fazem o crochê e o tricô. A produção acontece entre São Paulo e Londrina, porque é de Londrina que vem a família dela.
Lotes pequenos, feitos conforme as vendas acontecem, sem estoque morto e sem queima de coleção. E aqui vale uma correção que a gente mesma faz: o nosso processo não é curto. Uma peça leva tempo, passa por muita mão, tem etapa que espera. O que ele é, é local. E é por ser local que dá pra enxergar ele inteiro: olhar cada peça, corrigir na hora, saber o nome de quem costurou e responder qualquer pergunta sobre a origem sem precisar consultar terceiros.
6. Do PP ao 7G, e sem caixinha de gênero
Slow fashion que só veste um tipo de corpo não é lento, é excludente. Nossa grade vai do PP ao 7G, com modelagem inclusiva feita de forma fluida. As peças-base são agênero: vestem mulheres, homens e pessoas não binárias do mesmo jeito. Oversized que não marca demais, feminilidade que não sexualiza, conforto que dá liberdade de ser.
Se quiser ver isso destrinchado, a gente escreveu tudo em Por que escolher a Fuá.
A conta que vale a pena fazer: custo por uso
Preço é quanto você paga uma vez. Custo por uso é quanto aquela peça te custa cada vez que você veste. São coisas diferentes, e só a segunda diz alguma coisa sobre se valeu a pena. A conta é simples: preço dividido pelo número de vezes que você usou.
Peça de R$250
R$ 2,60por uso. Duas vezes por mês durante quatro anos dá 96 usos.
Peça de R$80
R$ 10,00por uso. Oito usos e ela sai do armário pra sempre.
A barata custou quase quatro vezes mais. E 8 usos não é número escolhido pra assustar: estudos de consumo apontam que peças de fast fashion costumam ser descartadas depois de 7 a 10 usos. Foram feitas pra isso.
Faça a conta com uma peça sua que você ama há anos. O número costuma ser um choque bom.
Como começar no slow fashion sem drama
Ninguém troca o armário inteiro numa tarde, e nem deveria. A roupa mais sustentável do mundo é a que você já tem. Então:
- Use o que já é seu, até acabar. Sério. Slow fashion começa em casa, não no carrinho de compras.
- Aprenda a cuidar. Lave menos e mais frio. Use bastante água pra ter menos atrito entre as peças. Prefira sabão líquido, porque o em pó machuca o tecido (e se for usar pó, dissolva antes). Seque na sombra. Quando a peça não está suja de verdade, pendura, areja e borrifa a misturinha em vez de lavar. Toda peça Fuá vai com um flyer de cuidados junto, e a gente responde no WhatsApp se pintar dúvida.
- Conserte antes de descartar. Barra, botão, um remendo bonito: costura resolve mais coisa do que parece. No nosso canal no YouTube tem dicas de como fazer consertos à mão, sem máquina e sem experiência.
- Compre o que tem a ver com você, não o que está bonito na vitrine. Antes de levar, pergunta: essa modelagem traduz a pessoa que eu sou e a que eu quero expressar? Ela combina com o que eu já tenho? Peça linda que não conversa com o resto do armário vira peça parada.
- Comece pelas peças-chave. Primeiro as que funcionam com várias coisas que você já tem, as que constroem a base do seu estilo. Depois, com o básico do seu jeito já resolvido, aí sim vão as diferentonas, as statement, as que existem só porque você amou. Nessa ordem, elas rendem muito mais.
- Faça a conta por uso. Antes de comprar, chuta quantas vezes você realmente vai vestir. O número costuma decidir sozinho.
- Pergunte quem fez. Se a marca não sabe responder, isso já é uma resposta.
- Desconfie da pressa. Se a peça "vai acabar", se a coleção "é só essa semana", se tudo é urgente: a urgência é a estratégia, não a oferta.
Perguntas frequentes sobre slow fashion
O que é slow fashion, em poucas palavras?
É produzir e consumir roupa priorizando qualidade, durabilidade e respeito, a quem faz, a quem veste e ao meio ambiente. O contrário do fast fashion.
Slow fashion é o mesmo que moda sustentável?
São primos, não gêmeos. "Moda sustentável" é o guarda-chuva grande (materiais, água, carbono, trabalho). Slow fashion é uma forma específica de chegar lá: peças atemporais que não dependem de calendário, produção pequena, processo transparente, e roupa feita pra ser usada muitas vezes. Uma peça pode sair de linha um dia, isso é normal. O que muda é a frequência: aqui não tem coleção nova toda semana empurrando a anterior pra escanteio.
Slow fashion é caro?
O preço na etiqueta costuma ser maior, sim, porque paga tecido melhor, mão de obra justa e tempo de trabalho real. Mas o custo por uso é menor, porque a peça dura. E, na conta do ano, você compra menos vezes.
O que é obsolescência programada e percebida?
São os dois jeitos de fazer você comprar de novo antes da hora. Na programada, a peça é feita pra durar pouco: o tecido é fino demais, a costura abre, o elástico cede lá pela décima lavagem. Ela não falhou, ela cumpriu o prazo. Na percebida, a peça continua inteira, mas te convenceram de que ela ficou velha, com coleção nova toda semana e microtendência atrás de microtendência. Uma quebra a roupa. A outra quebra a vontade de usar.
Roupa de poliéster é sempre ruim?
Não. O que importa é onde a fibra está e por quê. Mistura tipo algodão com poliéster costuma existir pra baratear o tecido, e o resultado é uma peça que solta microplástico e é quase impossível de reciclar. Já um tecido 100% sintético escolhido de propósito, porque aquele caimento ou aquela resistência era o que a peça pedia, é outra história. A pergunta útil não é "tem sintético?", é "por que tem sintético aqui?".
O que é transparência na moda, na prática?
É a marca conseguir responder, com nome e endereço, perguntas simples: onde a peça foi feita, quem costurou, quanto essa pessoa recebeu, de que é o tecido, e o que aconteceu com as sobras. Transparência não é dizer "somos sustentáveis", é abrir a informação pra você poder checar. Marca que produz no próprio ateliê responde na hora. Marca com processo longo e terceirizado muitas vezes não sabe, e é justamente essa distância que permite abuso.
Como saber se uma marca é slow fashion de verdade ou greenwashing?
Faça perguntas específicas e repare no tipo de resposta. "Onde é produzido?" tem que ter lugar. "Quem costura?" tem que ter gente. "O que acontece com as sobras?" tem que ter destino. "De que é o tecido?" tem que ter composição. Quem pratica responde com detalhe e sem rodeio, e muitas vezes até convida você a ver. Greenwashing responde com adjetivo: "eco", "consciente", "responsável". Bonito, vago, sem número, sem nome, sem endereço. Se a resposta não pode ser verificada, ela não é uma resposta.
Preciso jogar fora minhas roupas de fast fashion?
Pelo amor, não. Descartar é justamente o problema. Use até o fim, cuide, conserte. A mudança acontece na próxima compra, não nesta faxina.
Onde encontrar roupa slow fashion no Brasil?
Em marcas autorais independentes, ateliês e feiras de moda autoral. Pra achar de casa, procure na internet por termos como "slow fashion Brasil", "marca autoral sustentável", "roupa feita sob demanda" ou o tipo de peça mais a sua cidade. Vale olhar quem essas marcas seguem e indicam, porque esse mundo se conhece. A Fuá fica em Pinheiros (São Paulo), você pode conhecer o ateliê, e a gente envia pra todo o Brasil.
Slow fashion não é tendência. É voltar ao normal.
Durante quase toda a história, roupa foi feita com tempo e passada adiante. Ia do irmão mais velho pro mais novo, da prima pra prima, e quando saía da família ia pra uma amiga, e da amiga pra alguém que a gente nem conhecia. A peça tinha um percurso. Ela continuava.
O descartável é que é a novidade, e é bem recente. Escolher slow fashion é menos "aderir a um movimento" e mais lembrar de uma coisa que a gente já sabia.
Se quiser começar por uma peça que já nasce com essa história dentro, dá uma olhada nas queridinhas da Fuá ou vasculhe todas as peças com calma. Cada uma tem nome. Todas têm origem.
E se você chegou aqui nos últimos dias de frio: a coleção de crochê e tricô é feita à mão pela mãe e pelas tias da Glória, ponto por ponto, em Londrina. É o tipo de peça que atravessa inverno atrás de inverno, e que ninguém faz às pressas.
Ver as queridinhas Crochê e tricô Por que escolher a Fuá
Fontes dos dados citados
Origem do termo "slow fashion" (Kate Fletcher, jun/2007): The Ecologist · 92 milhões de t de resíduos têxteis/ano, produção dobrada entre 2000 e 2015, uso das peças 36% menor e 8% de fibras recicladas em 2023: PNUMA/UNEP · 2 a 8% das emissões globais, menos de 1% reciclado em roupa nova e peças descartadas após 7 a 10 usos: Geneva Environment Network · 35% dos microplásticos nos oceanos vêm da lavagem de tecidos sintéticos: PNUMA/UNEP · Microplástico em 75% das amostras de leite materno (revista Polymers, 2022): Canaltech · Plástico no bulbo olfatório (FM-USP, JAMA Network Open): O Tempo · Microplástico em 55% das amostras de sêmen (estudo preliminar, 2025): CNN Brasil · 44,8% da população sem coleta de esgoto (SINISA, 2023): Instituto Trata Brasil · Brasil descarta mais de 4 milhões de t/ano: CNN Brasil / Abrelpe · 80% do descarte vai para queima, aterro ou meio ambiente: ABREMA · Degradação do algodão (Abit e Embrapa Algodão): Abapa · Obsolescência programada e percebida: reCloset · Nove meses a mais de uso reduzem 20 a 30% das pegadas: WRAP · 2.772 pessoas resgatadas em 2025: Repórter Brasil · 16 pessoas resgatadas em oficinas de costura em MG: Estado de Minas · Índice de Transparência da Moda Brasil: Fashion Revolution